quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

George Lucas – O caminho até a força






O dia 25 de maio de 1977 é considerado um marco para a história do cinema blockbuster. Nessa data estreava nos cinemas norte-americanos Star Wars, o primeiro filme de uma franquia bilionária que rendeu ao seu criador, George Lucas, enorme prestígio e um império em produtos licenciados. Desde o início, mais do que apresentar uma visão criativa de um universo conciso recheado de seres estranhos e fascinantes, Lucas optou por uma abordagem diferente de comércio - conseguindo ficar com os direitos de merchandising da marca Star Wars, se tornando um dos homens mais bem sucedidos da história do entretenimento -, decretando a morte da velha Hollywood e seu formato vigente de negócios.

A trajetória antes de Star Wars...


Incentivado por um amigo de infância, George Lucas ingressou na Universidade da Califórnia do Sul para estudar cinema. Lá ele acabou conhecendo outro grande ícone da indústria cinematográfica, Francis Ford Coppola. Durante a estadia na Universidade, Lucas dirigiu um pequeno curta intitulado Look at Life - 1965. O curta chamou a atenção de um dos professores do curso que o inscreveu em vários festivais de cinema. Look at Life acabou agradando os críticos e ganhou pelo menos um prêmio em cada festival que participou.  

Look at Life - 1965

Encerrada a trajetória na Universidade, o recém formado cineasta entrou para o mercado de trabalho aceitando postos como câmera de segunda unidade, editor e ajudante de set de filmagem. Também começou a lecionar como professor assistente na escola de cinema da Universidade, onde acabou dando aula para um grupo de alunos no mínimo estranho: câmeras da Marinha e dos Fuzileiros Navais. Ele dividiu a turma em dois grupos para que cada um pudesse trabalhar em um filme. Os homens do grupo que estavam diretamente ligados ao professor produziram um curta intitulado Eletronic Labyrinth THX 1138 4EB, um trabalho que a muito tempo vinha sendo desenvolvido por Lucas e agora ganhava vida com ajuda de seus alunos.

Eletronic Labyrinth THX 1138 4EB 

No final de 1967, com vários prêmios do National Student Film Festival no bolso, o cineasta ingressou em um estágio na Warner Brothers, onde conseguiu transformar seu pequeno curta THX em um longa-metragem. Entretanto, a Warner odiou o resultado, exigindo que o dinheiro gasto na produção do filme fosse devolvido. THX acabou sendo retalhado pela produtora, mas mesmo assim foi exibido nos cinemas. O próximo projeto de Lucas, que também sofreu muitos cortes, foi American Graffiti – 1971, uma comédia dramática ambientada nos anos 50. O longa atingiu em cheio o gosto do público, rendendo a Lucas uma boa quantia em dinheiro que mais tarde seria investida em seu novo projeto, uma ópera espacial inspirada nos cultuados seriados Flash Gordon e Buck Rogers.

American Graffiti - 1971


Lucas se recusou a dirigir o filme Apocalypse Now, e voltou toda a sua atenção para a obra mais ambiciosa de sua carreira, Star Wars. Na época ele se deparou com um problema que havia atingido Hollywood diretamente, a crise dos filmes de ficção científica, que fez com que todos os grandes estúdios de efeitos especiais falissem e os departamentos de grandes empresas fossem fechados. Ainda decidido a transformar sua obra em realidade, o cineasta foi atrás de pessoas que atuavam na área, juntando um grupo de pessoas talentosas e criando seu próprio estúdio de efeitos visuais: a Industrial Light and Magic – ILM, hoje sinônimo de inacreditáveis efeitos visuais.

O roteiro de Star Wars era imenso, inspirado no conceito do Monomito documentado pelo antropólogo e historiador Joseph Campbell. Devido ao tamanho da história, Lucas optou por dividir a trama em três partes e acabou realizando apenas a primeira. No entanto, a tarefa de vender a proposta foi muito difícil já que a ideia era completamente equivocada para uma época em que filmes de guerra estavam em baixa, filmes de ficção científica passavam por maus bocados e os filmes para crianças — que seriam o principal público que Star Wars buscava atingir — não despertavam nenhum interesse nos executivos de Hollywood. Logo de cara, a Universal e a Warner recusaram o filme, assim como a Fox também teria feito, se não fosse a intervenção de Allan Ladd Jr., chefe de recursos criativos da empresa que ficou fascinado pelas ideias de Lucas (ilustradas pelas artes conceituais de John Barry) e convenceu os diretores do estúdio a investir no filme.

A produção enfrentou inúmeros problemas – estúdio descontente com o elenco, tempestades de areia nas locações da Tunísia, calor insuportável e cenários e figurinos que não funcionavam direito. O orçamento havia estourado e a Fox ameaçou cancelar a produção. No entanto, o fator que mais atrapalhou nas filmagens foi o fato da equipe achar ridículo tudo aquilo que estava sendo rodado.

Finalmente, no dia 25 de maio de 1977, Star Wars (ainda sem o subtítulo Uma Nova Esperança) entrou em cartaz em apenas 32 cinemas nos Estados Unidos. O sucesso foi estrondoso. Todas as salas tiveram recordes de público, apesar da Fox não ter feito grandes investimentos em publicidade para o filme. A inteligente divulgação de Star Wars foi gerada pela própria LucasFilm, que conseguiu convencer a editora Del Rey a lançar uma novelização oficial do filme quase seis meses antes de seu lançamento. O livro vendeu impressionantes 500 mil cópias, que criaram grande expectativa entre os compradores para o filme.  Em apenas cinco semanas, Star Wars recuperou o investimento inicial, abrindo caminho para as continuações e garantindo 10 indicações ao Oscar. Os icônicos personagens também despertaram o interesse do público em adquirir colecionáveis, bonequinhos e outros produtos, iniciando em escala os licenciamentos de merchandising que Lucas anteviu em seu contrato com a Fox. Aliviado, o diretor pôde começar a preparar os outros dois filmes de sua saga, agora totalmente financiados por um banco, sem qualquer intervenção do estúdio. Era uma época nova em Hollywood, com um cineasta tendo total controle sobre a sua criação.




Em 2012, depois de seis filmes, séries animadas e inúmeros produtos licenciados, George Lucas vendeu a LucasFilm para a The Walt Disney Company. O negócio de US$ 4,06 bilhões inicia uma nova etapa da franquia, com a promessa de um filme por ano, começando com O Despertar da Força, longa que estreia nos cinemas nessa quinta-feira (17) e da continuidade ao legado de Lucas. 


Andrei Souza, acadêmico do 3º semestre de Jornalismo na Universidade Feevale 

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