Eu estava pensando em alguma série para assistir após
terminar o semestre na Universidade. Estava observando o catálogo imenso da
Netflix, procurando por alguma série interessante e curta ao mesmo tempo.
Passando por inúmeros nomes de peso e me aventurando no campo das séries com
menos de 10 episódios, acabei me deparando com “Black Mirror”. A analogia do título diz respeito aos
monitores que passamos o tempo todo grudados – de computadores, de TVs, de
celulares, tablets -, aparelhos que, desligados, se revelam um espelho negro onde
muitas vezes buscamos sentido para nossas vidas. São apenas 7 episódios com
cerca de uma hora de duração, mas o suficiente para deixar qualquer mente em
estado vegetativo. Criando cenários distópicos, seja no presente ou em algum
futuro próximo, Black Mirror passa a explorar os males da tecnologia de uma
maneira muito inteligente e absurda de tão poderosa.
A série utiliza um formato que ficou muito conhecido nos
anos 50 com The Twilight Zone (Além
da Imaginação, no Brasil), onde cada episódio lida com uma história fechada,
sem apresentar conexões com as demais. O criador Charlie Brooker utiliza o estilo
para colocar o dedo na maior ferida de nossa geração: O uso excessivo da tecnologia,
como ela afeta as nossas vidas e até onde somos dependentes dela.
Usando de sarcasmo, humor negro britânico, suspense e
situações extremamente desagradáveis, Black Mirror é um soco forte no estômago
por, infelizmente, ser tão real. A série tem uma aura sombria, perturbadora, e
traz histórias que mostram uma humanidade que acha que domina sua relação com a
tecnologia, mas está fragilizada psicologicamente em seu vínculo (ou submissão)
com ela. A série nos passa uma certa sensação que estamos à beira de um
precipício moral que começa a se desenvolver a cada episódio. Porém em momento
algum soa como um profeta do apocalipse ou muito menos como um texto gigante de
Facebook contra a tecnologia.
Há algum tempo o termo “off-line” praticamente não faz mais
sentido, estamos 24hrs por dia conectados e essa barreira entre o real e
virtual já nem existe mais. Black Mirror explora muito bem essas novas regras
que surgiram há pouco tempo, mas já causam uma das maiores mudanças que a
sociedade sofreu em sua história. Nosso desejo descontrolado em entretenimento,
a necessidade de contar a tudo e todos o que estamos sentindo, a ansiedade
sobre a vida alheia. A tecnologia não criou novos comportamentos, mas nos
ajudou a extrapolar.
Os dramas com os quais se envolvem os personagens dos
episódios são versões exageradas de comportamentos que já são comuns hoje em
dia e provocam a mesma sensação de humor quanto de desconforto. É um excelente retrato
sobre os primeiros anos deste século, quando internet, computadores, redes
sociais e smartphones deixaram de ser exceção.
Sob o pretexto de ficção
científica, Black Mirror é na verdade uma crítica incontestável do presente e
não acepções populares de futuros hipotéticos. Debate potencialidades sinistras
da tecnologia existente com muito deboche e verdades jogadas na cara. O perigo
mora justamente aí, porque ao assistir, você pode acabar ficando desesperado.
Seja o que for, alguma coisa você sentirá.
Contudo, o mais irônico e
engraçado de Black Mirror é o fato de ser produzida pela Endemol, um dos
maiores polos de entretenimento do mundo, dona de inúmeros reality shows, games
televisivos e programas de variedades, alguns dos formatos criticados pela série.
Isso prova a imparcialidade da produção.
Andrei Souza, acadêmico do 3º semestre de Jornalismo na Universidade Feevale


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