Alguém já viu renas no Brasil? Ou pinheiros cobertos de neve intensa e profunda? Ainda que as temperaturas estejam relativamente baixas para o mês de dezembro, no sul do Brasil, o clima não pede nem de longe o modelito grosso e quente usado pelo Papai Noel. Muitos dos elementos Natalinos são característicos do inverno e do feriado europeu e americano. Para não mencionar que, em todas as ceias de Natal, o centro da mesa é preenchido pelo peru, representante americano do fim da fome dos primeiros colonos ingleses instalados nos Estados Unidos.
Conversei com o professor de Comunicação Social Humberto Keske sobre o assunto. Para ele, tais adaptações culturais são um absurdo. “Um exemplo aconteceu comigo em Salvador. Saindo da beira da praia do melhor mar do mundo, entrei no Shopping e encontrei imitações de pinheiros, com imitações de neve feitas de algodão e produtos altamente calóricos como castanhas e nozes em pleno calor de 43 graus. Vamos valorizar a nossa cultura e pensarmos a nossa identidade”, aconselhou o professor.
Em um grupo de discussão do Yahoo sobre as casas brasileiras, Papai Noel e chaminés, é possível encontrar respostas críticas como “Nós somos ridículos, mesmo” e “Nos países europeus até os pobres têm casas com chaminés. No Brasil, nem casas os pobres têm”. É para se pensar.
A intenção por detrás da visita do Papai Noel é, sem dúvida alguma, nobre e necessária. A alegria das crianças – principalmente carentes – ao verem aquele gordinho vestido de vermelho chegando ao longe é gratificante – gratificante por um lado e perturbador por outro. É comum ouvirmos as pessoas afirmarem que fazer voluntariado durante o Natal “lava a alma”...
No fim do ano passado, visitei um vilarejo em Sapiranga, com alguns colegas. Situação deplorável. Não consegui me sentir aliviada de nenhuma maneira, sabendo que grande parte do Brasil e do mundo vive exatamente assim. Não há nada melhor para acordar para a realidade do que ver o brilho nos olhos de crianças e adultos que não viam brinquedos ou comida há muito tempo.
Durante o Natal, o espírito de solidariedade não precisa vir embalado em figuras simbólicas americanas que disfarçam a verdadeira realidade do Brasil. Somos sim, um país de terceiro mundo e só evoluiremos quando tomarmos consciência deste fato; quando partirmos para atitudes drásticas rumo à evolução, e não à vassoura que tão descaradamente empurra a sujeira para debaixo do tapete.
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